Parto domiciliar – Modismo perigoso [TEXTO]


Parto 03  Parto 04  Parto 14  Parto 11

Primeiro precisamos diferenciar parto domiciliar de parto humanizado. Para ser chamado de humanizado, não interessa o lugar no qual ele é realizado, desde que sejam adotadas uma série de medidas que visem maior conforto e tranquilidade para a gestante. É aquele no qual a parturiente fica num ambiente bonito, aconchegante, com luz suave, ouvindo músicas relaxantes, em posições mais confortáveis, ou dentro da água, sentada em cima de bolas gigantes, podendo comer, beber água, ficar na presença de familiares e dispor de uma série de mimos, que tornariam seu parto mais agradável.

Nele, a gestante não seria mais uma pobre vítima da chamada “violência obstétrica”, executada pelos médicos opressores, pois não fica com acesso venoso, não são realizados tantos toques vaginais, nem corte na vagina para ajudar a saída do bebê, nem medicamentos que aceleram a contração uterina e outras intervenções médicas, o que tornaria o parto menos traumático para essa sensíveis e frágeis mulheres.

Já o parto domiciliar é aquele feito em domicílio, em casa, geralmente com o objetivo de propiciar a máxima humanização do mesmo, embora essa prática se assemelhe com os que os animais fazem na natureza.

Parir em casa é uma prática comum desde os tempos das cavernas, desde a pré-história, e novamente vem ganhando espaço no Brasil e no mundo. Seus adeptos geralmente buscam a máxima humanização, buscando controle da ansiedade, conforto, estreitamento dos laços familiares, precocidade e aumento do vínculo entre a mãe e o bebê, menores risco de infecções, facilitação do início da amamentação, etc.

Seus defensores alegam segurança baseados em relatos de experiências bem-sucedidas, em novos estudos que vivem saindo na internet e em garantias divinas ou espirituais. Também existem aqueles que não tem a menor noção de nada e o fazem indo no embalo dos demais, por puro e simples modismo. Seguindo a tendência de tudo que está na moda, a prática virou assunto nas redes sociais e tornou-se prato cheio para os que querem aparecer, se autopromover ou defender as tendências naturalistas, combatendo tudo aquilo que a classe médica fria, opressora e desumana preconiza. Se um famoso faz e posta no Instagram, aí é que o povo fica doido pra fazer também…

É fato que o parto normal é tão antigo quanto a nossa existência. Não deve ser encarado como uma doença ou situação de iminente perigo e estresse. Ele é fisiológico, na maioria das vezes isento de complicações, mas não é um evento 100% seguro e livre de problemas. Intercorrências podem surgir a qualquer momento, e caso não estejam disponíveis profissionais qualificados e toda uma estrutura para que eles trabalhem, isso pode significar o fim trágico de uma gravidez.

Quando falo de estrutura e profissionais qualificados, falo de um hospital, com obstetra, pediatra, anestesista, equipe de enfermagem, UTI para adultos, UTI neonatal, centro-cirúrgico, medicamentos, sangue disponível, etc. Em casa, mesmo com médicos, enfermeiros, alguns materiais e equipamentos, não chegamos a ter a décima parte das condições desejadas para um parto seguro. Se o parto estiver sendo conduzido apenas por uma “Doula”, aí é que a coisa se complica de vez.

Suas práticas batem de frente com várias condutas médicas, fato que nem deveria ser passível de discussão, devido ao tamanho do abismo que separa a formação de ambos. De um lado o obstetra e o pediatra, dois médicos que fizeram seis anos de faculdade e mais três de especialização, e do outro lado a Doula, que muitas vezes nem tem ensino superior, e que algumas vezes não tem sequer o curso preparatório de míseras 48 horas. Para terem ideia do quanto isso é sério, saibam que a atividade de “Doula” nem é reconhecida como profissão.

Deixemos as Doulas de lado, pois é fato que nem com os melhores médicos e enfermeiros do mundo, teremos em casa a mesma segurança de um hospital. Os defensores do parto domiciliar se apoiam num pré-natal bem feito e na ausência de fatores de risco. Também afirmam que caso algo não saia como planejado, é só colocar em uma ambulância e conduzir a gestante para um hospital mais próximo… Só que a coisa não é tão simples assim: Imprevistos acontecem.

Pode ser que não consigam o transporte; caso consigam, o mesmo pode demorar a chegar. Existem situações em que minutos de assistência adequada fazem toda a diferença. Sem mencionar que para consertar um parto domiciliar desastroso resultará em um parto hospitalar complicado e feito às pressas, com chances muito maiores de complicações, como óbito fetal, óbito materno, fraturas, luxações, lesões de plexo braquial e paralisia cerebral. Entendam como isso pode acontecer…

O trabalho de parto é divido em fases. Espera-se que cada uma apresente determinada evolução, tanto na descida do bebê quanto na dilatação uterina. Várias condições podem atrasar, dificultar ou impossibilitar essa dinâmica do parto, resultando no que chamamos de “distócias”. O exame físico e exames complementares podem diagnosticar ou dar indícios da possibilidade aumentada delas acontecerem, mas algumas são imprevisíveis e acabam sendo diagnosticadas no intraparto, na hora “H”, configurando situação de urgência ou emergência.

Tipos: Distócia funcional, é quando o útero não se contrai de maneira eficiente, não sendo capaz de realizar a descida e expulsão fetais; distócia fetal, que pode acontecer devido ao tamanho excessivo do bebê, ou por alterações do encaixe da sua cabeça na pelve, ou por alterações do cordão umbilical, por exemplo; e distócia pélvica, quando a bacia tem conformação espacial que dificulta a passagem.

A depender do tipo e da dimensão do problema, ele pode ser contornado por meio de alguns artifícios, como manobras para mudar a posição do bebê, outras para desfazer voltas do cordão umbilical, ou administração venosa de medicamentos que aumentam as contrações do útero. Em uma casa, dificilmente poderemos conduzir tal surpresa com a mesma eficiência que teríamos em um hospital. Se não tratadas a tempo, as distócias invariavelmente resultarão em falta de oxigênio para o bebê.

Ele recebe o oxigênio da circulação placentária. Se por algum motivo essa oferta for reduzida de forma importante, teremos o chamado “sofrimento fetal.” Pode acontecer antes do trabalho de parto, mas é bem mais frequente quando ele se inicia e é imprevisível.  Além das distócias, ele pode ter inúmeras outras causas, como pré-eclâmpsia, hipotensão, hemorragia materna, excesso de medicamentos para estimular contrações uterinas, etc.

Seu diagnóstico é realizado através da frequência cardíaca fetal e da cardiotocografia. Esta última é realizada por meio de um aparelho que mede os batimentos cardíacos do feto, e também a frequência, intensidade e duração das contrações uterinas. Essa monitorização é importante para que o obstetra possa detectar tais condições em estágios precoces para definir sua conduta. Quando diagnosticado, configura uma situação de urgência, que não pode esperar muito tempo.

Outro fator importante é que a gestante pode apresentar complicações diversas, como reações alérgicas a medicamentos, elevação ou queda da pressão arterial, eclampsia, hemorragias, ruptura do útero e uma série de outras intercorrências. A depender do tipo de evento e de sua intensidade, ele não poderá ser conduzido em ambiente domiciliar e as vezes nem poderá esperar o tempo do transporte.

Muitos defensores do parto domiciliar até mesmo estimulam a ingestão de líquidos e comida durante o trabalho de parto! Uma cirurgia de urgência se torna muito mais arriscada caso seja feita sem o tempo de jejum preconizado para cada tipo de alimento. Outra questão: Muitas vezes, devido ao edema característico da maioria das gestantes, pegar uma veia fica muito difícil. A demora para se conseguir acesso venoso diante de uma situação de urgência ou emergência pode significar a morte da mãe e do bebê.

Até dentro de um hospital às vezes é difícil realizar uma cesariana de urgência no tempo ideal. Temos que ligar no centro-cirúrgico para ver se há sala disponível e preparada, conduzir a gestante até o local, solicitar o anestesista, que ainda vai preparar o material para depois realizar o procedimento… Nessa história toda, mesmo com toda eficiência, podem passar 20 ou 30 minutos. Imaginem se essa urgência acontece em casa!

Reflitam: A pessoa passa meses planejando uma gestação, mais nove meses desenvolvendo o bebê com todo o cuidado possível, e no momento crucial, decisivo, para evitar a mísera permanência de 24 a 48 horas num hospital, arrisca a botar tudo a perder… Ela além de assumir um maior risco de mortalidade materno-infantil, pode ter que passar o resto da vida tendo que cuidar de um filho sequelado, às vezes até vegetando numa cama.

Se você quiser, tenha seu parto normal dentro da banheira, ou sentada numa bola, com músicas relaxantes, fazendo rezas, com a Doula te massageando e passando a mão na sua cabeça, mas o faça dentro de um hospital, sob a supervisão de um profissional capacitado, e acatando as condutas desse profissional.

O médico realiza o toque vaginal até de hora em hora, não é por sadismo; ele o faz para ver a progressão do parto e detectar possíveis complicações. Se deixam soro pingando numa veia, não é para se deliciar com agulhas penetrando no corpo da gestante; é para garantir um modo rápido e eficiente de administrar medicamentos caso seja necessário. O jejum e a restrição de ingestão de líquidos não são por maldade, mas sim para minimizar os riscos caso seja necessária a conversão do parto normal em cesariana. Resumindo: Tudo que o médico e os demais profissionais fazem, tem um porquê, uma razão, uma lógica. São anos e anos de muito estudo e pesquisa até chegarem até ali… Não será você lendo blogs na internet, e nem Doulas “formadas” em 48 horas, que terão condições de saber mais do que esses profissionais.

São duas vidas em jogo. Um parto pode se complicar de inúmeras formas diferentes. Qualquer coisa que minimize as chances de intercorrências, já terá valido a pena. Pensem bem antes de se arriscarem com esses modismos… Eles passam, mas suas consequências ficam, e às vezes duram a vida toda.

Texto escrito por Solon Maia
Médico e cartunista autor do blog Meus Nervos
– e-mail: solonmaia@gmai.com
– twitter: https://twitter.com/MeusNervos
– perfil no facebook: https://www.facebook.com/MeusNervos
– fan page do Meus Nervos no facebook: https://www.facebook.com/pages/Meus-Nervos/255564641164518?ref=hl

– perfil no instagram: https://instagram.com/solonmaia/
– PATREON: https://www.patreon.com/Meusnervos?ty=h


5 respostas para “Parto domiciliar – Modismo perigoso [TEXTO]”

  1. Opa!
    Cara, eu concordo com algumas coisas que você fala, outras eu discordo. Mas acho que o jeito que você escreve as vezes serve mais para afastar a classe médica dos pacientes, e não acho que seria esse seu objetivo. Existem algumas passagens que você poderia falar a mesma coisa de uma maneira diferente, assim, não reforçaria o preconceito que muitos tem da classe médica e ajudaria nessa aproximação.
    No mais, quero deixar os parabéns pelo blog.

    • Valeu, Man! Eu sei do que você está falando… Já tentei diálogo com os naturebas, antimédicos e leigos, e já vi que indo muito manso a coisa não dá certo. Faço de propósito, exatamente para chamar atenção e confrontar essa galera. Acho mais produtivo! Abração!

  2. Me lembrei de mais um detalhe, Solon.
    Na hipótese de o parto em casa dar errado e ter a família de recorrer ao hospital e aos médicos, caso estes não consigam reverter a situação, a culpa será deles (dos médicos) por qualquer problema, sem serem considerados os fatores anteriores à chegada da gestante/parturiente ao hospital.

    Também concordo com o Paulo Vitor quanto à forma com que alguns pontos são colocados no texto, mas entendo a sua posição ao redigir os textos. Infelizmente, com os “xiitas” da internet é difícil argumentar, conversar, trocar ideias (mesmo que continuem com as suas antigas ideias, apenas conversar com argumentos, com eles, é impossível, logo passam para a agressão). A arte de conversar e “trocar ideias” (e não apenas reforçar nossos estereótipos) está se perdendo.

    Porém, destaco que, muitas vezes, os médicos não explicam as razões das suas determinações aos pacientes, o que dificulta a relação (eu, por exemplo, gosto de saber o porquê das determinações – gosto de endenter o que está acontecendo, para ampliar meus conhecimentos, ainda que não seja médico).

  3. Excelente texto, parabéns! Quem dera todas as pessoas interessadas em “parto alternativo” pudessem ler esse texto antes e refletir. Elas esquecem o principal, a saúde e a vida do filho. Isso já seria motivo mais do que suficiente para se fazer qualquer mínimo “sacrifício” que fosse necessário, como passar 48 hs num hospital.

  4. Adorei o texto, Parabens!
    Estava gravida e acabei perdendo meu bebe, mas já tinha planejado o parto e queria humanizado (hospitalar).
    Como você disse, é seguro para mãe, para o bebe. É complicado abortar um assunto que está tão em evidencia como o parto domiciliar, é algo que se você pesquisa só tem coisas positivas e lindas e tudo mais, mas nunca a realidade.
    Não sou totalmente contra, mas penso que temos pessoas capacitadas que estudaram para isso e trabalham com isso para nos ajudar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *